"Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos." (Shakespeare)

Cyber Amor

 

Cyber Amor

por Ana D’Araújo

 

 

— oi... podemos tc?
— sim... pq nao?
— qual o seu nome?
— e o seu?
— em q cidade esta?
— puxa, pena q e longe...
— isso n importa
— ah q bom
— tem namorado?
— não, e vc?

(...)

 


E assim nascem os amores desse tempo.

 

Geridos e inspirados por teclas e letras. Sem cheiro. Sem sabor. Construídos sobre projeções de desejos inconscientes em vez de o encantamento surgir naturalmente... por um olhar, um sorriso cativante... um toque.... ou mesmo a essência de um perfume ou qualquer magnetismo procedente de nossos sentidos.

 

A tecla ganhou o lugar do toque; a letra, o da emoção; os sorrisos acontecem plasticamente emoldurados por telas iluminadas.

 

Há até quem prometa o famoso "seremos felizes para sempre" sem nunca ter visto pessoalmente quem recebe a promessa... E jura não estar fingindo!

 

Há aqueles que dizem nunca ter amado como estão amando o enamorado que apareceu de repente — num chat, naturalmente!


Tem gente que briga porque entendeu que a vírgula era um ponto reticente...

 

Há também quem guarde mágoa, pois o amigo rapidamente sumiu de sua frente sem escrever um "ausente", pois se importa somente com a vida na tela, ignorando que a vida real é atrás dela — a tela!

 

Há ainda os observadores de plantão, que se alimentam da investigação, dando conta da vida alheia, sem se dar conta que a sua própria passa longe da realidade.

 

Outros perderam o prazer pelo sexo real. Então a pele, o toque, o calor passaram a ser irrelevantes. Viciam-se e adoecem absortos em fantasias e mais fantasias que acabam na sempre na mesma: ausência, frustração... Enquanto isso, suas esposas dormem sós, à espera daquele que agora ama outra, a perfeita... criada conforme a imagem e semelhança de sua imaginação na tela de um monitor.

 

Meninas iludidas se sentem princesas... Mas seus príncipes não chegam mais em cavalos, como nos contos de fadas. Chegam montados em @@ e mensagens virtuais.

 

Pessoas viram personas, e agora podem ser o que quiserem ou o que desejam dizer que são. Ludibriam passando-se por "objeto do sonho esperado" de quem está do outro lado... enquanto adoecem na própria mentira. Até pesquisam gostos e desejos para poderem conquistar mais rapidamente o objeto de seu desejo.

 

Não é à toa que assim como iniciam as paixões virtuais de forma arrebatadora, também acabam da mesma forma. Não têm a chance de se tornarem sólidas; não têm consistência, pois nascem da imaginação de quem as constrói. E um ponto no lugar errado e na hora errada muda o seu destino, pois a imagem perfeita criada desfaz-se como uma nuvem passageira.

 

Por outro lado, acontecem as que viram realidade e se concretizam, levando até mesmo a um compromisso duradouro... Mas são raros os casos — ainda são minoria considerando-se a imensa quantidade de envolvimentos virtuais que acontecem a cada dia. Para esta possibilidade é necessária uma disposição de alma que carregue sinceridade, verdade e fuja das projeções.

 

Os casos de fobia social, depressão, baixa auto-estima ou falta de amor próprio e toda sorte de doenças psicossomáticas só aumentam.

E junto com eles aumentam as angústias de quem tenta ser quem não é e se mantém assim para sustentar a fantasia criada. 


Dentre toda essa realidade emocional-virtual, o amor verdadeiro e concreto se dissolve. Perde espaço para a fantasia que não gera amor consistente, pois parte das construções egoístas.

 

É certo que a Internet trouxe e continua a trazer a cada dia milhares de benefícios para quem a utiliza. O mundo ficou menor: cabe numa tela. Distâncias vencem as barreiras reais na virtualidade. As amizades se tornam mais presentes e compartilhadoras... E poderíamos enumerar aqui centenas de outros benefícios.

 

Mas e o amor?

 

O amor construído pelo convívio, que o faz amadurecer?

 

E o magnetismo do olhar?

 

O cheiro da pele? As sintonias concretas?

 

Penso que devemos considerar para onde caminhamos, e a despeito de usufruirmos os benefícios da vida cibernética, que saibamos proteger as emoções e o coração das armadilhas da virtualidade, priorizando sempre os encontros que se dão pelos sentidos reais. E caso eles venham a se dar na virtualidade, que existam pactos de verdadeira honestidade e transparência.

 

É só o amor que conhece o que é verdade!

 

Que ele nunca seja substituído da vida real por uma virtualidade irreal que a cada dia facilita ilusões e construções produzidas pela imaginação.

 

Vale a pena pensar sobre isso!

 

 

Ana D´Araújo

Psicoterapeuta Clínica

Julho/07

ana@anadaraujo.com.br

 

 

 
 
 

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